quinta-feira, 6 de maio de 2010

Estrela Carente

No começo de todas essas coisas, existia apenas eu, o céu e a minha estrela. Nada mais importava.

A minha estrela era linda, reluzia como uma princesa na escuridão da noite, nem mesmo as mais grossas nuvens eram capazes de ofuscar seu brilho. Era só ela ali, nada mais. E pra mim tudo tinha sentido.

A minha estrela cuidava de mim, se uma única gota de orvalho caísse dos meus olhos ela logo descia e me abraçava para que eu parasse de chorar. Mesmo não sabendo o que era o sofrimento, eu chorava e fazia meus dramas costumeiros só para sentir seus braços.

Mas com o tempo, foram chegando outros pequenos brilhos. Pra mim ainda insignificantes. Só que esses brilhos foram crescendo, e aos poucos se transformaram em estrelas também. E eu vi que elas tinham algum tipo de beleza, uma coisa meio mística. A minha ainda era a mais bonita, mas as outras começaram a me chamar atenção.

Porém, chegou um dia em que eu, que tinha os olhos apenas em uma, comecei a admirar outras tantas, e pouco a pouco fui esquecendo a minha querida.

Eu já nem chorava mais, queria pular entre as nuvens e brincar de cair. Era tão divertido.

A minha estrela, sozinha num canto, percebeu que não poderia fazer mais nada. Ela começou achar que não era mais a única, e tampouco a mais bela. E então resolveu virar estrela cadente e cair em terra de pessoas descentes.

Eu nem me importei, afinal, eu tinha uma constelação todinha só pra mim. Mas um dia veio uma nuvem densa que cobriu todas as luzes de todos os corpos celestiais, e de repente finalmente percebi que sem a minha estrela eu ficaria no escuro. Já era tarde demais. Ela tinha ido embora. Eu não sabia o que fazer.

Pedi para que pássaros me ensinassem a voar para eu ir atrás do que realmente me importava. Mas de nada adiantou. Sempre que eu chegava perto, a minha estrela, que não era minha, pegava carona em outro meteoro e ia para terras mais distantes.

Confesso que fiquei um bom tempo voando sem parar, mas meus braços, que não eram acostumados com tais atividades começaram a se cansar, e eu percebi que era hora de ir pra casa, e esquecer a estrela que me esqueceu.

Chegando ao infinito (meu lar), eu me senti ofuscada. Já não agüentava mais tanto brilho. Era tão bom quando eu tinha apenas uma estrela. E então, comecei a mandar todas irem embora, chega de estrelas que me ensinam cair, já estava cheia de hematomas.

Agora meu céu está vazio. Ás vezes passa por aqui um ou outro cometa, mas logo vai embora. Eu não tenho mais esperanças que a minha estrela retorne, talvez, pra ela, seja melhor conhecer outros universos, com outras pessoas, e de caráter melhor, que não vão abandoná-la por qualquer vaga-lume.

Minha vida ainda não tem sentindo, mas uma coisa é certa: quando aparecer uma estrela por aqui lhe vou servir um chá e logo ensiná-la a voar, para que, juntas, conheçamos outras galáxias.

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